2023 foi o ano do combate à inflação. No Brasil e no mundo, os bancos centrais lutaram contra a alta de preços herdada da pandemia. Em resposta, muitos bancos centrais elevaram suas taxas de juros a níveis históricos.

Em 2024, as economias devem continuar herdando os frutos deste trabalho. Por um lado, o crescimento deve ser baixo, por causa dos efeitos das taxas ainda elevadas. Por outro lado, o recuo da inflação permitirá um respiro para as famílias e permitirá que, lá fora, os principais bancos centrais comecem a discutir o início do corte nos juros. No Brasil, a queda da Selic deve continuar.

Brasil: As reformas e o problemas no fiscal

O desequilíbrio das contas públicas brasileiras ficou evidente no início do ano, com a aprovação de cerca de R$ 170 bilhões de despesas fora do teto de gastos. Isso norteou o caminho para uma nova regra orçamentária: o arcabouço fiscal.

Aprovada no início do 2º semestre, a nova lei afastou o risco de o Brasil ficar sem uma regra fiscal capaz de minimamente controlar as contas do governo. Por outro lado, o arcabouço não colocou em discussão uma priorização de gastos, pois ele garante o contínuo avanço das despesas além da inflação.

Outro marco importante, foi a aprovação da reforma tributária. A nova regra simplifica o sistema de impostos, reunindo diferentes tributos em uma alíquota única. O efeito no longo prazo é positivo para a produtividade do país.

Com base na melhora do cenário, o Copom iniciou em agosto o ciclo de queda de juros, promovendo quatro cortes de 0,5 ponto percentual. A Selic encerrou 2023 em 11,75%.

Brasil: Selic em queda

Após muitos rumores sobre uma possível elevação da meta de inflação a partir de 2026, o Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu manter a meta em 3%.

Essa sinalização, somada ao processo de desaceleração da inflação no segundo semestre, promoveu um alívio. O IPCA (principal índice de preços do país) provavelmente encerrou 2023 ligeiramente abaixo do limite da meta, que é de 4,75%, mas ainda distante do alvo, que é de 3%.

As expectativas dos analistas de mercado para a inflação à frente ficaram mais próximas da meta estipulada.

Brasil: Agro forte e desemprego baixo

Quando 2023 começou, as expectativas para o crescimento do PIB brasileiro estavam abaixo de 1%. De forma surpreendente, a economia do país deve ter encerrado o ano com um avanço de quase 3% (os dados oficiais do acumulado do ano só serão divulgados pelo IBGE em março).

O principal motor da economia foi a agropecuária, que colheu uma safra recorde de grãos no primeiro semestre. Em menor medida, o aumento dos gastos públicos também colaborou.

Na ausência do empurrão do agro, o PIB esfriou na segunda metade do ano, mas o crescimento do início de 2023 garantiu um mercado de trabalho aquecido. O desemprego encerrou o ano abaixo de 8%, em um nível inferior ao da média histórica (10%).

EUA: Economia resiliente e dívida alta

No início de 2023, a crise dos bancos regionais americanos tornou incerto o caminho da economia. Ao longo dos meses, essa ameaça diminui: as autoridades agiram rápido para conter o problema e a economia americana cresceu, apoiada por um consumo forte e pelo mercado de trabalho aquecido.

A inflação ainda está elevada, mas a desaceleração gradual dos preços levou o Federal Reserve (banco central americano) a pausar a alta dos juros no terceiro trimestre e, em dezembro, a sinalizar um início de conversas sobre os cortes das taxas.

No ambiente político, o governo americano travou batalhas com o Congresso para ampliar o teto da dívida pública e evitar o corte de despesas. O endividamento do governo, que vem subindo de forma acelerada desde a pandemia, está em torno de 120% do PIB.

Europa em “estagflação”

Os preços do gás natural caíram no início do ano, um sinal de que a economia da Europa poderia ter um 2023 melhor do que 2022 (quando a guerra na Ucrânia começou). A expectativa não se confirmou. Os preços de energia seguiram impactando as empresas e as taxas de juros no maior patamar da história esfriaram a economia.

A Alemanha, motor da Europa e potência industrial, sentiu mais esses efeitos. Sem a força da sua principal economia, a zona do euro encolheu no terceiro trimestre.

A inflação cedeu em relação ao pico alcançado no fim de 2022, mas segue elevada. Por isso, o Banco Central Europeu reforçou, na última reunião de 2023, que era cedo para falar em corte de juros.

Os desafios de Argentina e China

A Argentina elegeu Javier Milei, um político autodenominado “anarcocapitalista” que terá o desafio de resolver a grave crise do país. Para combater uma inflação que passa dos 150% ao ano, o novo presidente anunciou cortes de despesas e uma desvalorização do peso argentino. A tarefa crucial de Milei será convencer o parlamento argentino a aprovar suas reformas.

Na China, o fim das medidas para controle da covid-19 impulsionou a economia. O crescimento perdeu fôlego nos meses seguintes e o governo chinês precisou recorrer a medidas de incentivo para garantir a meta de avanço do PIB de cerca de 5% em 2023. A crise imobiliária reduziu o poder de um setor que já foi importante para o crescimento do país.

Expectativa para Economia em 2024

A grande pergunta de 2024 é: quando os juros vão começar a cair nas principais economias?

Embora o presidente do Fed tenha afirmado que as discussões de cortes de juros são ainda incipientes, a aposta do mercado é que a primeira redução acontecerá já no primeiro trimestre. E as expectativas para os juros europeus não são muito diferentes.

Na nossa visão, é cedo para comemorar. A batalha contra a inflação não está vencida. Ainda que os preços estejam desacelerando, o desemprego baixo em solo americano e europeu indica que a inflação de serviços não dará sossego. Acreditamos que os juros devem permanecer elevados por mais um tempo.

As taxas ainda em patamar restritivo serão um freio para a atividade econômica. Depois de um PIB forte em 2023, os EUA devem experimentar um crescimento mais modesto neste ano. A perspectiva de juros caindo mais cedo também tem enfraquecido o dólar globalmente, e a tendência é que isso continue a acontecer ao longo do ano.

Vale lembrar que os americanos escolherão um novo presidente em novembro e que, por ora, o pleito segue sem um provável vencedor. Possivelmente, a disputa será entre o atual presidente Joe Biden e o ex-presidente Donald Trump, mas os nomes ainda podem mudar.

No Brasil, o ciclo de queda da Selic deve continuar em 2024. O Copom sinalizou que vai seguir cortando os juros de forma gradual, de olho nos riscos que podem voltar a pressionar a inflação. O ciclo de queda da Selic deve continuar em 2024. O Copom sinalizou que vai seguir cortando os juros de forma gradual, de olho nos riscos que podem voltar a pressionar a inflação.

Cenário Externo

Abril foi marcado por uma forte recuperação dos mercados globais, mesmo em meio à continuidade das tensões no Oriente Médio e aos impactos do conflito entre Estados Unidos e Irã sobre os preços de energia. O petróleo permaneceu em níveis elevados ao longo do mês, sustentando preocupações inflacionárias e reduzindo o espaço para cortes de juros em diversas economias desenvolvidas.

Os bancos centrais seguiram adotando um discurso cauteloso, diante da persistência da inflação de serviços e dos efeitos indiretos da alta do petróleo sobre a atividade econômica e as expectativas de preços.

Ainda assim, os investidores voltaram a concentrar atenção nos fundamentos das empresas, especialmente no setor de tecnologia, impulsionados por resultados corporativos acima das expectativas e pela retomada do entusiasmo em torno da inteligência artificial.

Cenário Local

No Brasil, abril foi um mês de contrastes. A bolsa local iniciou o período sustentada por forte entrada de capital estrangeiro e chegou a se aproximar novamente das máximas históricas. No entanto, ao longo da segunda metade do mês, o movimento global de rotação para ativos ligados à tecnologia e inteligência artificial reduziu o interesse relativo por mercados mais associados a commodities, como o brasileiro.

O ambiente doméstico continuou sendo influenciado pela revisão altista das expectativas de inflação e juros, principalmente após a alta dos combustíveis e a persistência de pressões inflacionárias nos serviços. O Banco Central manteve o ciclo de política monetária restritivo, sinalizando cautela diante do cenário fiscal e da resiliência da atividade.

Mercados

Enquanto os principais índices internacionais foram impulsionados pela recuperação das empresas de tecnologia e pelas revisões positivas de lucro, o mercado local teve desempenho mais moderado, refletindo a maior sensibilidade às expectativas de inflação e juros domésticos.

Nos Estados Unidos, a temporada de resultados do primeiro trimestre trouxe números robustos, especialmente nas empresas ligadas à inteligência artificial e semicondutores, reforçando o movimento de valorização do setor de tecnologia.

Nesse contexto, os mercados internacionais registraram desempenho bastante positivo, com o MSCI AC avançando +10,03%, o S&P 500 subindo +10,42% e o MSCI EM registrando alta de +14,53%. O movimento foi particularmente forte nos mercados asiáticos ligados à cadeia global de semicondutores, como Coreia do Sul e Taiwan, beneficiados pela melhora nas perspectivas para empresas de tecnologia e pela revisão positiva de lucros globais.

Já no Brasil, os setores defensivos e financeiros ajudaram a sustentar o índice, enquanto empresas mais dependentes do ciclo doméstico e dos juros permaneceram pressionadas. Nesse cenário, o Ibovespa encerrou abril praticamente estável, com variação de -0,08%, refletindo um equilíbrio entre o fluxo estrangeiro positivo, a melhora dos lucros corporativos e o aumento das incertezas relacionadas ao cenário inflacionário e aos juros.

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