No início deste ano, havia expectativas de um um cenário desafiador para a economia global e desaceleração da atividade no Brasil. Entretanto, o cenário observado foi de resiliência, juntamente com uma melhor percepção de risco no Brasil.

No cenário global, em muito foi subestimado o efeito que a poupança acumulada durante o período da pandemia teria no consumo e, consequentemente, no emprego. Nos dois últimos meses, vimos surpresas positivas de crescimento, mercados de trabalho surpreendentemente forte a essa altura do ciclo econômico, o que não era esperado.

No Brasil, subestimamos a força do agro e do impulso fiscal, promovido tanto pelo governo anterior quanto pelo atual. A combinação desses elementos resultou em um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, próximo de 4% no primeiro semestre, em termos anuais, ultrapassando mais que o dobro do estimado como potencial para o PIB.

Cenário Local

O início do governo Lula foi marcado por um fluxo intenso de “notícias negativas”, com frustações frequentes daqueles que esperavam um tom mais moderado do presidente.

Após a divulgação do arcabouço fiscal e com as expectativas já adaptadas à nova realidade, vivemos uma onda de notícias positivas tanto no cenário externo quanto local, os ativos locais seguiram mostrando boa performance em junho. Apesar de um arcabouço fiscal frágil, a manutenção pelo CMN das metas de inflação em 3% para o médio prazo contribuiu para o cenário benigno ao reverter o custoso ruído criado pelo Governo em torno do tema no início do ano. Além disso, estamos às vésperas de um ciclo de corte de juros que deve iniciar já em agosto devido as surpresas baixistas de inflação divulgadas.

Apesar de estarmos mais otimistas no curto prazo, certamente o PIB não deve manter o momento observado no primeiro semestre. E talvez, com essa desaceleração e maior proximidade de mudança na liderança do banco central, fantasmas fiscais e inflacionários podem voltar a assombrar nossa economia.

Cenário Global

No contexto global, a situação atual apresenta semelhanças com o que foi observado no início do primeiro semestre, mas foi desmontada de forma gradual nos meses subsequentes. Inicialmente, a economia mundial apresentava sinais evidentes de desaceleração do crescimento, ao mesmo tempo em que a inflação permanecia alta, embora com uma trajetória menos intensa. Nesse cenário, os Bancos Centrais estariam se aproximando do fim do ciclo de aumento das taxas de juros.

Levando em consideração a resiliência do mercado de trabalho global, especialmente nos países ocidentais, continuamos com o mesmo questionamento, o quão próximos estamos do fim do ciclo de aperto monetário global? Esta incerteza segue condicionando os preços de ativos no mercado internacional. Durante esse período, é crucial avaliar a capacidade da atividade econômica, especialmente da demanda doméstica, em absorver os impactos. Por sua vez, o mercado de trabalho permanece forte, com criação de empregos sólida. Apesar do leve aumento no endividamento das famílias, o nível segue abaixo da média pré-pandemia e afasta a chance de queda na demanda nesse momento.

Portanto, o tema central atualmente é a capacidade de antecipar ou não uma recessão, que representa o principal risco para classes de ativos mais voláteis, como o mercado de ações.

Com relação à China, continuamos a observar uma atividade em desaceleração, com números no segundo trimestre bem inferiores ao esperado pelo mercado. O país enfrenta condições distintas em relação ao cenário ocidental, a desaceleração econômica será combatida seguindo as estratégias usuais, que envolvem estímulos monetários, apoio fiscal e relaxamento das restrições em setores específicos, com destaque para o setor imobiliário e automotivo.

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Cenário Externo

Abril foi marcado por uma forte recuperação dos mercados globais, mesmo em meio à continuidade das tensões no Oriente Médio e aos impactos do conflito entre Estados Unidos e Irã sobre os preços de energia. O petróleo permaneceu em níveis elevados ao longo do mês, sustentando preocupações inflacionárias e reduzindo o espaço para cortes de juros em diversas economias desenvolvidas.

Os bancos centrais seguiram adotando um discurso cauteloso, diante da persistência da inflação de serviços e dos efeitos indiretos da alta do petróleo sobre a atividade econômica e as expectativas de preços.

Ainda assim, os investidores voltaram a concentrar atenção nos fundamentos das empresas, especialmente no setor de tecnologia, impulsionados por resultados corporativos acima das expectativas e pela retomada do entusiasmo em torno da inteligência artificial.

Cenário Local

No Brasil, abril foi um mês de contrastes. A bolsa local iniciou o período sustentada por forte entrada de capital estrangeiro e chegou a se aproximar novamente das máximas históricas. No entanto, ao longo da segunda metade do mês, o movimento global de rotação para ativos ligados à tecnologia e inteligência artificial reduziu o interesse relativo por mercados mais associados a commodities, como o brasileiro.

O ambiente doméstico continuou sendo influenciado pela revisão altista das expectativas de inflação e juros, principalmente após a alta dos combustíveis e a persistência de pressões inflacionárias nos serviços. O Banco Central manteve o ciclo de política monetária restritivo, sinalizando cautela diante do cenário fiscal e da resiliência da atividade.

Mercados

Enquanto os principais índices internacionais foram impulsionados pela recuperação das empresas de tecnologia e pelas revisões positivas de lucro, o mercado local teve desempenho mais moderado, refletindo a maior sensibilidade às expectativas de inflação e juros domésticos.

Nos Estados Unidos, a temporada de resultados do primeiro trimestre trouxe números robustos, especialmente nas empresas ligadas à inteligência artificial e semicondutores, reforçando o movimento de valorização do setor de tecnologia.

Nesse contexto, os mercados internacionais registraram desempenho bastante positivo, com o MSCI AC avançando +10,03%, o S&P 500 subindo +10,42% e o MSCI EM registrando alta de +14,53%. O movimento foi particularmente forte nos mercados asiáticos ligados à cadeia global de semicondutores, como Coreia do Sul e Taiwan, beneficiados pela melhora nas perspectivas para empresas de tecnologia e pela revisão positiva de lucros globais.

Já no Brasil, os setores defensivos e financeiros ajudaram a sustentar o índice, enquanto empresas mais dependentes do ciclo doméstico e dos juros permaneceram pressionadas. Nesse cenário, o Ibovespa encerrou abril praticamente estável, com variação de -0,08%, refletindo um equilíbrio entre o fluxo estrangeiro positivo, a melhora dos lucros corporativos e o aumento das incertezas relacionadas ao cenário inflacionário e aos juros.

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