Carta do Consultor

No cenário global, os investidores estão direcionando toda a sua atenção para o banco central americano, o Federal Reserve (FED), e para os indicadores de inflação e atividade econômica nos Estados Unidos. Após a declaração do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, no final de janeiro, na qual os membros do comitê expressaram falta de confiança no controle do processo inflacionário, os dados oficiais de inflação divulgados mostraram números acima das expectativas e ultrapassando a meta estabelecida, além de uma resiliência surpreendente nos mercados de trabalho dos países desenvolvidos nos quais o patamar do crescimento ainda se mostra saudável, mas começam a demonstrar sinais de acomodação (e algum arrefecimento) em algumas áreas da economia.

Em decorrência, o mercado mudou sua expectativa para cortes de juros para apenas meados de 2024. Após chegar a precificar quase 6 cortes de 25bps ao longo de 2024, o mercado hoje precifica cerca de 3 cortes de 25bps nas taxas de juros este ano.

No Brasil, o cenário poderia ter sido mais desafiador se não fossem as surpresas positivas nos dados fiscais e no setor externo. No aspecto fiscal, os números de arrecadação de janeiro registraram um aumento significativo de 6,7% em termos reais em comparação com o mesmo período do ano anterior. Um destaque notável foi a arrecadação de R$4,1 bilhões provenientes da tributação da segunda parcela dos fundos exclusivos, superando as expectativas do governo.

Esses dados, combinados com as expectativas de crescimento do PIB em 2,0% e uma melhor composição para a arrecadação, reforçam a tentativa do governo de perseguir a meta de zerar o déficit primário neste ano. Embora essa meta possa ser desafiadora de alcançar, a possibilidade de adiar o debate sobre esse assunto de março para maio oferece algum alívio no cenário doméstico.

Renda Fixa

Em fevereiro, os ativos de risco doméstico registraram uma performance positiva e consistente, em contraste com o forte clima de aversão ao risco do mês anterior. No mercado de renda fixa, o retorno mensal foi bastante semelhante entre as diferentes subclasses: CDI (+0,80%), IMAB (+0,55%) e IRFM (+0,46%), mas com um desempenho superior ao CDI dadas as incertezas em torno da política monetária americana.

Por outro lado, os títulos prefixados de longo prazo foram os únicos a apresentar rentabilidade negativa, o que chamou a atenção devido à abertura das taxas de juros nos contratos mais longos da curva prefixada.

Multimercado

O índice IHFA apresentou um desempenho estável, registrando um aumento de +0,05% até 28/02. No acumulado do ano, contudo, observou-se uma queda de -0,27%, enquanto nos últimos 12 meses apresentou uma alta de 7,97%.

Para fins de alocação, a posição busca capturar a gestão ativa, sobretudo em cesta de moedas e curvas de juros estrangeiras que usualmente não temos exposição direta. Continua sendo importante geradora de resultado por uma questão de diversificação.

Renda Variável

O início de fevereiro foi frustrante para os mercados, depois do FED ter sinalizado que seria mais cauteloso do que o esperado, provavelmente apenas iniciando a flexibilização monetária no segundo semestre de 2024. Mas mesmo com as taxas de 10 anos dos EUA em alta, provocando uma grande saída de investidores estrangeiros pelo segundo mês consecutivo (-R$ 9,5 bilhões em fevereiro; -R$ 17,4 bilhões no acumulado do ano), as ações locais tiveram um desempenho surpreendentemente positivo, subindo + 0,99%.

Lá fora, o surpreendente resultado da NVIDIA segue como destaque e para o bom retorno do S&P e 97% das companhias do S&P divulgaram os seus resultados no 4T23. Tivemos até o momento uma temporada sólida, o que ajudou na boa performance dos ativos. O S&P 500 subiu + 5,07% no mês.

Cenário Externo

Abril foi marcado por uma forte recuperação dos mercados globais, mesmo em meio à continuidade das tensões no Oriente Médio e aos impactos do conflito entre Estados Unidos e Irã sobre os preços de energia. O petróleo permaneceu em níveis elevados ao longo do mês, sustentando preocupações inflacionárias e reduzindo o espaço para cortes de juros em diversas economias desenvolvidas.

Os bancos centrais seguiram adotando um discurso cauteloso, diante da persistência da inflação de serviços e dos efeitos indiretos da alta do petróleo sobre a atividade econômica e as expectativas de preços.

Ainda assim, os investidores voltaram a concentrar atenção nos fundamentos das empresas, especialmente no setor de tecnologia, impulsionados por resultados corporativos acima das expectativas e pela retomada do entusiasmo em torno da inteligência artificial.

Cenário Local

No Brasil, abril foi um mês de contrastes. A bolsa local iniciou o período sustentada por forte entrada de capital estrangeiro e chegou a se aproximar novamente das máximas históricas. No entanto, ao longo da segunda metade do mês, o movimento global de rotação para ativos ligados à tecnologia e inteligência artificial reduziu o interesse relativo por mercados mais associados a commodities, como o brasileiro.

O ambiente doméstico continuou sendo influenciado pela revisão altista das expectativas de inflação e juros, principalmente após a alta dos combustíveis e a persistência de pressões inflacionárias nos serviços. O Banco Central manteve o ciclo de política monetária restritivo, sinalizando cautela diante do cenário fiscal e da resiliência da atividade.

Mercados

Enquanto os principais índices internacionais foram impulsionados pela recuperação das empresas de tecnologia e pelas revisões positivas de lucro, o mercado local teve desempenho mais moderado, refletindo a maior sensibilidade às expectativas de inflação e juros domésticos.

Nos Estados Unidos, a temporada de resultados do primeiro trimestre trouxe números robustos, especialmente nas empresas ligadas à inteligência artificial e semicondutores, reforçando o movimento de valorização do setor de tecnologia.

Nesse contexto, os mercados internacionais registraram desempenho bastante positivo, com o MSCI AC avançando +10,03%, o S&P 500 subindo +10,42% e o MSCI EM registrando alta de +14,53%. O movimento foi particularmente forte nos mercados asiáticos ligados à cadeia global de semicondutores, como Coreia do Sul e Taiwan, beneficiados pela melhora nas perspectivas para empresas de tecnologia e pela revisão positiva de lucros globais.

Já no Brasil, os setores defensivos e financeiros ajudaram a sustentar o índice, enquanto empresas mais dependentes do ciclo doméstico e dos juros permaneceram pressionadas. Nesse cenário, o Ibovespa encerrou abril praticamente estável, com variação de -0,08%, refletindo um equilíbrio entre o fluxo estrangeiro positivo, a melhora dos lucros corporativos e o aumento das incertezas relacionadas ao cenário inflacionário e aos juros.

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