A narrativa de mercado construída entre dezembro e janeiro, que afirmava que o piora da inflação e do ciclo de juros teria ficado para trás, foi praticamente revertida pelos novos dados divulgados ao longo de fevereiro. O mercado incorporou um cenário de crescimento mais forte em 2023 nos principais mercados (EUA, China e Europa), acompanhado de uma pressão inflacionária mais resistente que, por consequência, demandará maior reatividade da política monetária dos países desenvolvidos.

Nesse cenário, há menos inclinação para apetite ao risco como ocorreu entre dezembro e janeiro, demandando uma maior busca por ativos seguros em um ambiente de juros mais altos por mais tempo.

Brasil

Após um mês de janeiro razoável, o Ibovespa sofreu uma forte queda em fevereiro (-7,5% em BRL; -9,8% em USD), levando a um declínio acumulado no ano (-4,4% em BRL; -3,2% em USD). Embora as ações globais em geral tenham tido um mês difícil em fevereiro (S&P500 -2,6%), Os ativos brasileiros, em particular as ações, foram mais afetados pelas declarações do governo em relação à autonomia do Banco Central e à possibilidade de flexibilização da política monetária por meio da adoção de uma meta de inflação mais alta.

Discutir a meta de inflação é uma discussão válida, porém, fazê-lo em um contexto de incerteza fiscal e sem uma regra fiscal clara resultou em uma desancoragem das expectativas de inflação. Agora espera-se uma inflação de 6,2% em 2023 e 4,1% em 2024, tornando mais difícil qualquer redução na Selic neste ano. A projeção de diversas instituições é que a Selic permanecerá inalterada em 13, 75% até o final do ano de 2023.

O governo anunciou que apresentará um novo arcabouço fiscal em março, que será amplamente discutido no Congresso. No entanto, apresentar um quadro fiscal crível e restritivo o suficiente para estabilizar a dívida pública em um prazo razoável pode ser um desafio diante das pressões renovadas para aumentar os níveis de gastos. Lula, por exemplo, expressou planos para aumentar as alíquotas de isenção de imposto de renda e aumentar o salário mínimo, o que teria um impacto significativo nas contas públicas.

Apesar disso, ter uma nova regra fiscal, mesmo que não seja ideal, é melhor do que a incerteza de não tê-la. Além disso, a arrecadação de impostos foi mais forte do que o esperado em janeiro e pode surpreender positivamente em 2023, ajudando a compensar parte dos gastos extras.

EUA

O mês de janeiro foi marcado por uma sequência de surpresas na economia dos Estados Unidos. Além do índice ISM de serviços indicar um crescimento acima do esperado, o Payroll de janeiro também superou as expectativas, com a criação de 517 mil vagas de emprego, contra as 189 mil esperadas. As vendas varejo também apresentaram um desempenho melhor do que o previsto, com uma alta de 3,0% em relação ao mês anterior, ante a expectativa de 2%. Esses dados sugerem uma aceleração da atividade econômica no país.

Além dos indicadores de atividade, a inflação continua sendo motivo de preocupação. O índice de preços ao consumidor do PCE, que é acompanhado de perto pelo Fed, teve uma alta de 0,6% em janeiro em relação ao mês anterior, ligeiramente acima da expectativa do mercado (0,5%). O núcleo da inflação, que exclui os itens voláteis, também apresentou uma surpresa de alta, subindo 0,6% em relação a dezembro, contra uma expectativa de 0,4% pelo consenso de mercado e por nós. A aceleração da inflação foi observada em diversos setores, como bens, serviços e energia.

A força do núcleo da inflação deve persistir no curto prazo, principalmente devido à inflação dos serviços, que está diretamente relacionada ao mercado de trabalho apertado.

Dessa forma, a expectativa é que o FOMC (Comitê de Política Monetária americano) adote uma postura mais dura em relação ao juros e alongando a taxa terminal de juros dos EUA. Isso pode voltar a fortalecer o dólar globalmente.

Europa

A economia da Zona do Euro assim como os EUA está mostrando resiliência e aponta para um 1T23 mais forte de crescimento do que o estimado anteriormente. Isso, no entanto, pode ser um vetor inflacionário, já que os PMIs mostram uma nova aceleração do setor de serviços em fevereiro, e os indicadores de sentimento mostram uma melhora das expectativas de empresários e consumidores.

Além disso, ainda há pressão no núcleo da inflação (5,3%) e outras métricas subjacentes, indicando que o ECB pode mudar seu diagnóstico de preocupação com a inflação, que antes era atribuída aos preços mais elevados de energia, para uma preocupação com a resiliência do mercado de trabalho (taxa de desemprego de 6,6%), o que pode exigir um ajuste mais tempestivo da política monetária.

No entanto, a probabilidade de uma recessão no curto prazo foi reduzida devido à normalização dos preços de energia e à melhora das expectativas dos empresários e consumidores.

China

Enquanto esperamos pelos dados concretos da economia, como o varejo e a produção industrial, que fornecerão informações mais precisas sobre o processo de reabertura, estamos atentos às informações de alta frequência que indicam uma retomada da mobilidade urbana. Além disso, os dados antecedentes, como os PMIs, também indicam uma recuperação em andamento.

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Cenário Externo

Abril foi marcado por uma forte recuperação dos mercados globais, mesmo em meio à continuidade das tensões no Oriente Médio e aos impactos do conflito entre Estados Unidos e Irã sobre os preços de energia. O petróleo permaneceu em níveis elevados ao longo do mês, sustentando preocupações inflacionárias e reduzindo o espaço para cortes de juros em diversas economias desenvolvidas.

Os bancos centrais seguiram adotando um discurso cauteloso, diante da persistência da inflação de serviços e dos efeitos indiretos da alta do petróleo sobre a atividade econômica e as expectativas de preços.

Ainda assim, os investidores voltaram a concentrar atenção nos fundamentos das empresas, especialmente no setor de tecnologia, impulsionados por resultados corporativos acima das expectativas e pela retomada do entusiasmo em torno da inteligência artificial.

Cenário Local

No Brasil, abril foi um mês de contrastes. A bolsa local iniciou o período sustentada por forte entrada de capital estrangeiro e chegou a se aproximar novamente das máximas históricas. No entanto, ao longo da segunda metade do mês, o movimento global de rotação para ativos ligados à tecnologia e inteligência artificial reduziu o interesse relativo por mercados mais associados a commodities, como o brasileiro.

O ambiente doméstico continuou sendo influenciado pela revisão altista das expectativas de inflação e juros, principalmente após a alta dos combustíveis e a persistência de pressões inflacionárias nos serviços. O Banco Central manteve o ciclo de política monetária restritivo, sinalizando cautela diante do cenário fiscal e da resiliência da atividade.

Mercados

Enquanto os principais índices internacionais foram impulsionados pela recuperação das empresas de tecnologia e pelas revisões positivas de lucro, o mercado local teve desempenho mais moderado, refletindo a maior sensibilidade às expectativas de inflação e juros domésticos.

Nos Estados Unidos, a temporada de resultados do primeiro trimestre trouxe números robustos, especialmente nas empresas ligadas à inteligência artificial e semicondutores, reforçando o movimento de valorização do setor de tecnologia.

Nesse contexto, os mercados internacionais registraram desempenho bastante positivo, com o MSCI AC avançando +10,03%, o S&P 500 subindo +10,42% e o MSCI EM registrando alta de +14,53%. O movimento foi particularmente forte nos mercados asiáticos ligados à cadeia global de semicondutores, como Coreia do Sul e Taiwan, beneficiados pela melhora nas perspectivas para empresas de tecnologia e pela revisão positiva de lucros globais.

Já no Brasil, os setores defensivos e financeiros ajudaram a sustentar o índice, enquanto empresas mais dependentes do ciclo doméstico e dos juros permaneceram pressionadas. Nesse cenário, o Ibovespa encerrou abril praticamente estável, com variação de -0,08%, refletindo um equilíbrio entre o fluxo estrangeiro positivo, a melhora dos lucros corporativos e o aumento das incertezas relacionadas ao cenário inflacionário e aos juros.

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